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Vamos falar sobre compulsão alimentar?


Você já chegou em casa depois de um dia cansativo de trabalho, faculdade ou de outra atividade e sentiu uma vontade intensa, quase incontrolável, de comer?


Em alguns momentos, a comida pode parecer uma forma de aliviar o estresse, a ansiedade, a frustração ou o cansaço emocional. Entretanto, sentir vontade de comer após um dia difícil não significa, necessariamente, que a pessoa tenha um transtorno alimentar.


O comer emocional pode acontecer ocasionalmente e está relacionado à tentativa de lidar com emoções. Já o Transtorno de Compulsão Alimentar (TCA) apresenta critérios específicos para o seu diagnóstico.


O que caracteriza a compulsão alimentar?


Um episódio de compulsão alimentar é caracterizado pela ingestão de uma quantidade de alimentos claramente maior do que a maioria das pessoas consumiria em circunstâncias semelhantes e em um período delimitado, acompanhada da sensação de perda de controle sobre o que ou quanto se está comendo (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2022).


Durante o episódio, a pessoa pode sentir que não consegue parar de comer ou controlar a quantidade ingerida. Os episódios também estão associados a pelo menos três das seguintes características:


Comer muito mais rapidamente do que o habitual;

Comer até se sentir desconfortavelmente satisfeita;

Consumir grandes quantidades mesmo sem sentir fome física;

Comer sozinha por vergonha da quantidade ingerida;

Sentir culpa, tristeza, vergonha, arrependimento ou repulsa de si mesma após o episódio.


Portanto, a culpa pode estar presente, mas não é suficiente, isoladamente, para caracterizar o transtorno.


Quando é considerado um transtorno alimentar?


Para o diagnóstico de Transtorno de Compulsão Alimentar, os episódios precisam causar sofrimento significativo e ocorrer, em média, pelo menos uma vez por semana durante três meses.


Além disso, os episódios não devem estar associados regularmente a comportamentos compensatórios, como vômitos autoinduzidos, uso inadequado de laxantes, jejuns prolongados ou exercícios físicos excessivos. Essa ausência de compensação é um dos aspectos que diferenciam o TCA da bulimia nervosa (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2022; GIEL et al., 2022).


Como é feito o diagnóstico?


O diagnóstico é clínico e deve ser realizado por um profissional habilitado, como médico psiquiatra ou psicólogo.


Durante a avaliação, o profissional procura compreender:


A frequência e a duração dos episódios;

A quantidade de alimentos ingerida;

A sensação de perda de controle;

Os possíveis gatilhos emocionais e ambientais;

Os sentimentos presentes antes e depois dos episódios;

A existência de comportamentos compensatórios;

O histórico de dietas e alterações de peso;

O impacto do comportamento alimentar na vida pessoal, familiar, social e profissional.


Questionários validados, como a Escala de Compulsão Alimentar Periódica, podem auxiliar na identificação dos sintomas e na avaliação de sua gravidade. Entretanto, esses instrumentos são utilizados para triagem e não substituem a entrevista e o diagnóstico clínico (FREITAS et al., 2001).


O nutricionista também possui um papel importante na identificação dos sinais, na avaliação do comportamento alimentar, no encaminhamento e no acompanhamento nutricional, atuando em conjunto com outros profissionais.


Nem todo exagero alimentar é compulsão


Comer além do habitual em uma festa, buscar um alimento reconfortante depois de um dia difícil ou apresentar um episódio isolado de exagero alimentar não significa, necessariamente, ter compulsão alimentar.


O diagnóstico considera um conjunto de fatores: recorrência, perda de controle, sofrimento emocional, duração dos sintomas e ausência de comportamentos compensatórios recorrentes.


A comida não é, necessariamente, o problema. Muitas vezes, ela está sendo utilizada como uma tentativa de aliviar emoções ou necessidades que ainda não foram reconhecidas e acolhidas.


Se esses episódios acontecem com frequência e causam culpa, vergonha, sofrimento ou prejuízos à qualidade de vida, buscar ajuda profissional é um importante ato de cuidado. O Transtorno de Compulsão Alimentar tem tratamento, preferencialmente realizado por uma equipe multiprofissional (TREASURE; DUARTE; SCHMIDT, 2020).


Referências bibliográficas


AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-5-TR. 5. ed., texto revisado. Washington, DC: American Psychiatric Association Publishing, 2022.


FREITAS, S. et al. Tradução e adaptação para o português da Escala de Compulsão Alimentar Periódica. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, v. 23, n. 4, p. 215–220, 2001.


GIEL, K. E. et al. Binge eating disorder. Nature Reviews Disease Primers, v. 8, art. 16, 2022. DOI: 10.1038/s41572-022-00344-y.


TREASURE, J.; DUARTE, T. A.; SCHMIDT, U. Eating disorders. The Lancet, v. 395, n. 10227, p. 899–911, 2020. DOI: 10.1016/S0140-6736(20)30059-3.


WORLD HEALTH ORGANIZATION. International Classification of Diseases 11th Revision — ICD-11. Geneva: WHO, 2022. Disponível em: ICD-11. Acesso em: 3 ago. 2026.

 
 
 

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